Elias a agarra e a puxa pra cima, forçando-a a ficar de pé. Subitamente parando de rir, Kelly grita tentando se arrastar pelo chão. Três disparos. Um segundo. Uma vida inteira muda. Kelly, ainda em pé por estar nos braços de Elias, se deixa levar. E ele percebe sua fraqueza. Tenta entender o que acontece, olha para todos os lados. Há alguns carros que estão passando ao lado ignorando-os. Ele se desespera e grita pelo nome dela. Ele tenta entender o que acontece, olha para si próprio. Há alguns sentimentos direcionados para ela. Uma imagem dela jovem e sorridente invade sua mente. Em frações de segundos passa toda a vida que teve com ela. Ele se lembra até da chuva que tomaram juntos, na rua, enquanto passeavam. Como ficaram ensopados e davam muitas risadas e trocaram os primeiros beijos. Agora somente sua mão está ensopada e com o sangue dela escorrendo pela sua cabeça e barriga. Elias, entregue à situação, chora por um momento até ouvir uma sirene de um carro de polícia se aproximando. Totalmente em dúvida do que fazer e dominado pelo instinto de sobrevivência, se levanta e foge. Porém, inconsciente, corre de volta até sua própria casa. Ao chegar lá, abre a porta, entra e a fecha. Olha para a casa em que mora. Parece lembrar-se da casa em que morava Kelly ainda na época com a família. Lembra-se da própria casa. De seu pai e de sua mãe. Irmãos. Alguns amigos. Todos morreram. A história é grande demais para ele suportar de uma vez. Ele tropeça pelo chão. Cada objeto que toca lhe lembra algo. Tudo se foi. Como é possível ter construído uma vida assim. Não... Isso não é construção... Isso não é vida. Elias busca cigarros e bebidas enquanto se arrasta pelo chão. Agarra seu maço de cigarros e então se lembra de quem lhe ensinou a fumar. Não mais suporta. Fecha os olhos e aceita desmaiar. Ao acordar, Elias está na delegacia. Há um policial esperando-o acordar. Um silêncio. O policial olha para o lado e chama alguém. O policial respira fundo. Olha para o lado e dá um sinal. Um minuto se passa e dois policiais aparecem segurando um prisioneiro chamado Victor. "Elias! O que você faz aqui seu filho da puta?! Você me paga! Eu te mato ainda!" E continua gritando sem parar a mesma coisa enquanto ele é levado de volta à força por quatro policiais. Victor é grande. Forte. Porém não muito esperto. Seu conhecimento sobre o mundo não ultrapassa as poucas palavras que acabou de pronunciar. Pelo menos Elias acredita que ele não é esperto. Mas ele tem uma dívida enorme com Victor que, se este estivesse livre, iria transformá-lo num brinquedo pelo resto da vida. Elias conversa na delegacia por mais de três horas e é totalmente preparado para o plano. A polícia, para facilitar, realiza seu sonho de morar naquele prédio que ele tanto quisera antes. Este é o primeiro passo do plano.
- Ei... Você! Está bem, cara? - Pergunta o policial.
- É... Estou sim. - Responde Elias.
- Então vamos direto ao assunto.
Entra outro policial. Ele se encosta à cadeira. Seu nome é Camilo. Elias recupera um pouco de sua postura que havia perdido.
- É... Vamos começar de talvez onde você possa entender... Tem preferência? - Pergunta Camilo.
- Fale o que quiser. - Responde Elias.
- Kelly.
- Ela morreu então?
- Não se faça de sentimental, Elias. Nós te conhecemos muito bem e temos prisioneiros aqui sedentos por sua cabeça. Não brinque com a gente.
- Ela não era nada pra mim e só um brinquedo para os outros.
- E você está certo numa outra coisa. Ela morreu sim. Porém temos testemunhas que dizem que a ultima pessoa que estava com ela era você mesmo.
- Sim. Eu a levava até o mercado, como ela havia me pedido.
- E disseram também que você a agrediu no meio da rua.
- Sim. Senti vontade de espancá-la e não seguro vontades. Não faz bem a saúde.
- Estou vendo como isso compensa os seus cigarros e bebidas.
Elias não responde.
- Sabemos que não foi você, Elias. Não está aqui para se defender.
- Sabem que não fui eu? Oras... Eu nem iria me interessar em me defender. Podem fazer o que quiserem.
- Estou vendo que não te interessa chegar até a verdade. Mas precisamos de sua ajuda.
- Eu? Ajudando a polícia de novo? Não me parece um bom acordo.
- Então, Elias? Temos um acordo? - Pergunta o policial.
- O que vai ser? - Pergunta Elias, mais interessado.
- Sabemos quem a matou. É um assassino de aluguel.
- Qual o nome dele? Não conheço todos.
- Então conhecerá o melhor deles. Pois este negocia bem os preços com quem o procura, além de ter muitas estratégias.
FIM.
domingo, 4 de maio de 2008
Mudanças de Vida - Parte VI - Renato Seabra
Mudanças de Vida - Parte V - Renato Seabra
Já é de manhã. Outro dia de trabalho promete ser puxado para Kelly, mas não para Elias. Ele continua no sofá do mesmo jeito e com cinzas de cigarro nos dedos e a maioria no chão que deixou cair, sem ter tido forças para puxar o ultimo trago que há muito tempo já havia abandonado a vontade. Ela se aproxima cautelosamente e observa que uma barata esta na orelha de Elias. Ao tentar matá-la, a barata corre para dentro da camiseta dele. Não tendo a mínima paciência, Kelly localiza onde está a barata, a segura pela camisa com uma das mãos e com a outra a torce como um pano molhado, a barata é amassada e libera um liquido amarelo, manchando a camiseta e grudando nas mãos dela. Ela solta a camiseta e gruda no corpo de Elias, fazendo com que ele movimente seus dedos e deixando o cigarro cair no chão. Kelly deita-o no sofá para que ele possa dormir de algum jeito. Elias não resiste ao seu doce toque. Uma lembrança de carinho passa em sua mente e parece aquecê-lo. Ele sabe que algo está acontecendo, mas sente seu corpo cair como há quilômetros de altura. Kelly se encontra com outro cliente em sua casa chamado Otávio. Homem muito rico e poderoso na cidade. Ele diz a ela que fornecerá tudo que precisar para ela se livrar de Elias. Porém, Kelly diz para ele não se preocupar que estará muito ocupada a noite. Otávio vê Elias deitado no sofá. "Que criatura mais desprezível. Como pode agredir uma mulher?". Otávio se despede de Kelly, deixando um pouco de drogas e dinheiro pra pagamento. Já é noite e Elias é acordado por Kelly. Ele reflete um pouco sobre alguns sonhos estranhos que teve, mas não liga muito pra isso. Há muito tempo abandonou seus sonhos. Elias tira da mão dela e guarda o dinheiro no bolso de sua calça e sai primeiro pela porta. Deixando Kelly fechando a casa e seguindo-o. Elias pensa em como tudo isso poderia ser diferente, mas sua visão de uma vida melhor é tão limitada que esse pensamento não durou nem três segundos. Elias se vê um pouco sentimental esta noite. Não sabe o que acontece. E como não sabe interpretar, considera isso apenas mais uma de suas muitas confusões. Eles chegam até uma rua que tem um parque ao lado. De frente há um prédio grande e bem bonito. Há poucas janelas acesas. Elias até mesmo gostaria muito de morar lá se tivesse dinheiro. Kelly observa o parque. Dois sentimentos a invadem. O amor e o ódio. A sua decisão seria agora. Ela amou Elias há muito tempo e o odeia pelo que fez com a sua vida, ou seja, também há muito tempo. Ela deseja vingança. Como ela gostaria de ter filhos. Como ela gostaria de ter uma casa decente. Ela pensa em como gostaria de ter outras coisas, mas também, assim como Elias, já se esqueceu de tudo isso. Seus sonhos foram esquecidos no meio do caminho da vida. Ela deseja vingança. Só isso. "Só isso!" ela suspira. Elias olha para ela sentindo que foi chamado. Kelly fala isso e pára de andar. Kelly, ao pronunciar estas palavras com muito ódio, também as pronuncia com muitos risos e altos. Era óbvio de que se tratava de uma risada falsa, devido a não ter motivos para uma verdadeira há muito tempo. E Elias sabia disso. Sabe que era falsa, não só a risada, mas ela por completo. Elias, pensando somente em como ele estava sendo humilhado, vai agressivamente pra cima de Kelly sem que ela possa se defender e estranhamente se joga no chão. Elias fica de pé, vendo-a se arrastar sozinha pelo chão como tem feito por toda a vida diante de muitos homens, menos diante dele próprio. Kelly não pára de rir. A pergunta de Elias sobre ela ter fumado alguma coisa parece ser positiva. Nunca a havia visto neste estado excêntrico.
- Oh! Acorda ai. Levanta! - Fala Kelly.
- O que você quer? - Reclama Elias.
- Preciso ir até o mercado e não vou sozinha a esta hora.
- Que se dane. Eu não preciso de nada.
- Você sabe que é perigoso andar agora! Vamos lá! Você sempre foi!
- Mas é uma cretina mesmo. Por que não foi mais cedo?
- Eu trabalho, esqueceu? E você, que nem trabalha e só sabe dormir?
Elias se levanta irritado.
- Você que deveria ter ido faz tempo. - Ainda falando Kelly.
- Cale a boca. Vamos logo. Pegue o maldito dinheiro.
"Vou comprar uns cigarros pra mim" Elias pensa.
- Está aqui! E é do meu trabalho, está bem?
- Está olhando o prédio, é? - Pergunta Kelly, insinuando alguma coisa.
- Hum... Não posso olhar também?
- Não, não. Só estou vendo como você sonha a toa, seu imbecil!
- Do que está falando? - Pergunta Elias.
- Que você é um imbecil? É surdo também?
- Você fumou alguma coisa? Está louca?
- O que você vai fazer seu fracassado?
- Pare de me humilhar!
sábado, 3 de maio de 2008
Mudanças de Vida - Parte IV - Renato Seabra
Kelly entra no bar. Bancos de couro, boa iluminação, um garçom no meio e garçonetes entregando alguns pedidos. E lá está o homem. "É óbvio que está escondendo alguma coisa" ela pensa. "Não tem como não saber que é ele" ela acredita.
Ela caminha até ele. Há um banco vazio. Senta diante dele. Eles se olham. Ela se senta um pouco incomodada por estar ali. Não quis dizer a Gabriel, mas ela nunca aparece por lá sem companhia. Foi por isso que ela perguntou a ele se seria "Chegar e falar" com ele. Porém, pelo pouco que ela observou não há nenhum perigo.
- É... - Tenta falar Kelly - É... Eu moro com um homem que...
- Sei. Seu marido te espanca.
- Hum! Isso... E quero que você...
- E quer que eu o mate pra você.
- É... Quanto... Quanto vai...
- Depende de como vai pagar. Mas isso nós podemos deixar pra depois.
- Como pode saber de tudo isso?
- Não devo essas respostas a você.
Kelly ouve atentamente o plano e o aceita. Não parece difícil.
Kelly, sozinha, sai do bar após uma hora e meia. Meia hora de explicação e uma hora de pagamento adiantado. Está muito escuro e poucas pessoas na rua. Sente muito frio. Tenta pensar em um lugar para passar a noite, mas não consegue pensar em nenhum outro senão a própria casa. Ela não queria voltar lá tão cedo.
Quando Elias acorda não sabe de muitas coisas. Parece ter perdido sua consciência, mais uma vez. Ele olha para os lados, reconhece onde mora, tenta perder a consciência novamente, mas não consegue. E em algum tempo se levanta.
Toma um banho frio. Prepara um café. Parece estar um pouco mais atento.
Senta em seu sofá, liga a televisão e lá, sem pretender, passaria a vida toda se necessário sem ao mínimo perceber sua decomposição. Morte declarada. Seu único movimento era mover o braço e as mãos para ascender um cigarro e fumar e depois ascender o outro. Fumar e ascender o outro. Fumar e ascender o outro...
Kelly chega lentamente a sua casa. Percebe que a porta está fechada e acha isso estranho, pois havia deixada aberta. Logo percebe que Elias está sentado, mas sem medo entra normalmente, como se nada houvesse ocorrido. Ela o vê ali naquele estado hipnotizado e começa a se trocar na frente dele. Lentamente Elias é atraído pelo som do zíper da calça de Kelly abrindo-se, acompanhado de alguns movimentos sensuais de seu corpo. Os estalos que ela força acontecer enquanto tira seu sutiã faz com que Elias fique um tanto curioso, mas parece ter perdido o interesse ao ver essa cena. Ela fica totalmente nua, ergue lentamente a perna, exibindo-a, soltando levemente a calcinha por entre os tornozelos e passa diante e bem perto de Elias movimentando suas curvas. Ele a olha, mas a despreza totalmente.
Kelly tentou nessa hora humilhá-lo, mas acabou se sentindo desvalorizada por um momento. Porém, como ela mesma já se desvalorizou há muito tempo, não fez tanta diferença. Pelo menos tudo isso foi o que passou pela mente dela. Pois Elias nem ao menos estava enxergando alguma coisa quando olhava para os lados. Totalmente inconsciente.
Sem mais o que fazer e morrendo de ódio e ansiedade, ela vai deitar-se. Sem mais o que fazer como durante toda a vida, ele continua por ali mesmo.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Mudanças de Vida - Parte III - Renato Seabra
Kelly se acalma e se alegra ao vê-lo. O cara entra no carro e Kelly caminha até o outro lado, onde um capanga, pequeno e encapuzado, como alguns outros, abre a porta pra ela entrar. Ele liga o carro e os três carros começam a andar pela cidade juntos. Os olhos de Kelly parecem brilhar ao ouvir isso. Kelly sente um tom de imposição nas palavras de Gabriel, mas sem muita alternativa naquela hora, "Pode ser..." Kelly vai pensando muito sobre o próximo fim de Elias. Ela por alguns poucos segundos sente saudades dele, mas como não sabe a origem disso, é levada pelo gosto da vingança. E origens disso não faltavam. Eles dão uma volta pela cidade. Chegam até o bar. O local é bem cuidado, pois é uma parte do bairro bem mantida pelo governo. Há muitos prédios bonitos ao redor e a rua é muito bem iluminada.
- Ahh! Oi amor! Tudo bem? - Ela grita.
- Olá minha querida... Você me ligou?
- Humf! Você nem imagina...
- O que houve? Você... Está machucada?! Quem fez isso?
- Calma meu amor. Foi aquele idiota do Elias. Ele...
- O que ele fez pra você? Ele te agrediu?
- É... Ele me bateu um pouco...
- Eu vou acabar com ele agora...
- Não precisa... Eu bati na cabeça dele com um pedaço de pau e ele está desmaiado agora...
- Ele vai pagar por isso ainda.
- Eu sei que vai.
- Quer sair daqui?
- Claro...
- Então... Ele te agride faz tempo?
- Sim, senhor Gabriel. Não adianta fingir que você não sabe.
- Como assim?
- Você sempre me viu com alguns machucados. Não adianta dizer que não.
- É. Aquele desgraçado. Só não o matei por sua causa, não queria te deixar triste ou te causar problemas.
- Eu estou cansada dele já.
- Se está mesmo, eu posso te dar uma solução pra isso.
- Tem um cara. Ele quase sempre está naquele bar famoso, em frente ao parque... Sabe?
- Sei, sei... E daí?
- Fale com ele. Ele cobra para matar, mas não é caro e pode te oferecer todo um plano para isso ocorrer e você sai totalmente sem culpa.
- Hum... Qual o nome dele?
- Sinto muito. Não posso falar assim. Você saberá que é ele. É muito acessível. Ao entrar no bar, veja quem está sentado quase ali no meio, vestindo uma espécie de casaco antigo, entende?
- Casaco antigo?
- Isso. É um cara com um estilo próprio. Está sempre bebendo alguma coisa por lá.
- Ele é fácil assim? Chegar e falar?
- Claro. Vou te deixar lá na entrada. Só não diga que eu te indiquei. Simplesmente chegue falando. Ele não se importa como você soube dele.
- É aqui querida. Ele deve estar aí.
- Ok, meu bem! Vou falar com ele então! Até mais tarde!
- Tchau. Se cuida. Ligue-me se precisar.Enquanto se despedem, eles trocam alguns beijos e Kelly sai do carro. Logo ela se lembra que não tem mais celular.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Mudanças de Vida - Parte II - Renato Seabra
- Que ridícula... Saia da minha frente!
Kelly, sentindo um pouco de medo e sem responder, se levanta devagar e se afastando, pega suas poucas roupas do chão perto de seu corpo. Ele está muito preocupado com as redondezas e não sabe o que fazer. Senta calmamente em seu sofá. Elias está preso a uma roda de pensamentos envolvendo sexo, Kelly, dinheiro, Enrique e cigarros. Kelly se aproxima a passos lentos e tenta uma conversa amigável. Elias se sente humilhado e dá um soco em seu rosto. Sem resistência e surpreendida. Kelly cai. Elias, agressivamente, parte pra cima dela que tenta se defender, mas não consegue. Ele não está consciente do que está fazendo. Pelo menos de uma pessoa normal é o que se pode pensar. Em seus golpes parece haver leves toques de uma busca feroz para sentir algum afeto do corpo de Kelly. Suas pernas... Suas coxas... Sua barriga... Seus seios... Seu rosto... Sua boca. Kelly nunca apanhou tanto. Ela buscava uma maneira de se desviar, mas não conseguia. Era muito difícil devido a Elias estar muito próximo. Até que em um momento Elias a joga em cima de uma mesa. Ele odeia essa mesa. Foi um presente de Gabriel. Mas essa mesa agora quebrou e em cima dela estava o celular da Kelly. Ao vê-lo cair, ela se arrasta pelo chão esticando um braço de cada vez, como se tentasse subir em uma parede, enquanto era pisoteada por Elias, até que ela agarra alguma coisa e sem ver e apertando com seu dedo em vários lugares, acaba discando para o último numero discado há algumas horas. A ligação foi feita. O primeiro toque é recebido. "Kelly? É você?" fala uma pessoa do outro lado. Mas nesse momento, Elias já havia tirado o celular das mãos dela e não suporta ouvir alguém pronunciando seu nome. Ele lança o celular na parede com toda a força, despedaçando-o completamente junto com uma lista de clientes e horários agendados por mais de três meses de trabalho garantido. Kelly começa a gritar muito alto e um desses gritos faz Elias parar em pé, fazendo-o pensar "Nossa... O que estou fazendo?". Isso foi o que Kelly extraiu da imagem dele parado, em pé, diante dela, porque na verdade Elias estava fora da realidade, não pensando em nada. Em puro estado de choque. Indiferente a isso, Kelly não perde a chance e pega um pedaço da mesa quebrada e bate em sua cabeça. Sem resistência e surpreendido. Elias cai. Provavelmente esta foi umas das suas horas de sono mais tranqüilas. Mesmo que ele tentasse remédios mais fortes que uma paulada na cabeça, essa valeu por todas. Cinco horas se passam em sono profundo. Kelly vai até sua bolsa que está no chão, pega sua carteira com dinheiro e abandona a casa deixando tudo como está. Antes de sair, olha para o celular quebrado. "Seu canalha... Você me paga por isso". Sem saber para onde ir ou talvez sem muitas opções, simplesmente sai e segue pela rua principal. Cansada e com os tornozelos doendo por estar de salto alto, Kelly, após andar por seis quarteirões, é cercada por três carros. São carros esportivos, coloridos e até alguns familiares para ela. Tentando adivinhar quem estariam dentro daqueles carros. Só consegue perceber que realmente são muitos. Os carros param. Kelly confia que podem ser conhecidos em busca do que ela tem a oferecer. Passa por sua mente como está machucada e totalmente sem vontade para não fazer nada. Aceitaria a morte agora se essa a convidasse. A rua está bem iluminada. Ela é um alvo fácil. Alguns homens saem de seus carros, estão todos armados. Kelly não tem a mínima reação. Outro homem sai de uns dos carros. Tira os óculos. A iluminação da rua também o permite ver.
- O que você tem hoje amor?
- O que você quer? Não sou um de seus clientes... Caia fora!
- Hum... Idiota...
- Você só vem aqui com esses homens! - Grita Elias.
- Alguém tem que manter essa casa! Você não faz nada!
- Você não percebe que pode trazer perigo?! Eu devo dinheiro para gangues inteiras da cidade!
- Isso não é problema meu!
- Agora vai ser...
"Oras... Mas a ligação caiu..."
"Você quer ir lá ver?"
"Sim, vamos até lá"
terça-feira, 29 de abril de 2008
Mudanças de Vida - Parte I - Renato Seabra
Numa rua chamada Trinta e três, na casa 52, mora um casal com alguns problemas. Não possuem filhos. Não possuem família. Não possuem amigos. Enfim, não possuem ninguém. Eles moram nesta casa, que é considerada uma das melhores da região. Possui um cômodo enorme que coube a cozinha, o quarto e o banheiro. Tudo é separado por velhas cortinas, sem o mínimo de privacidade. Poucos nessa rua tiveram esse privilégio. Motivo de inveja para a maioria. E isso, também, motivo de medo para continuarem por lá. Como é de se pensar eles passam muitas necessidades. O marido não trabalha e a mulher teve de se prostituir para conseguir dinheiro. Não que foi difícil para ela. Bonita, e elegante quando precisa, conquistou homens de quase toda a cidade, de muitas classes sociais. Ela se chama Kelly. Ele se chama Elias. Este casal não conhece paz há muito tempo, pois Elias tem se envolvido com traficantes e bandidos de todos os lados tentando encontrar uma saída para seus problemas financeiros. Enquanto isso, Kelly ia se envolvendo com homens da mesma linha, e cada vez de gangues mais pesadas. O que preocupava Elias, por ter dívidas altas com todos eles e nem com a vida conseguiria pagar. Kelly e Elias não misturam seus negócios, o que deixa Elias irritado, por mais que ele saiba que ela está certa. Ele não aceita o comportamento dela e sempre que ela volta do trabalho, não importa com qual quantia de dinheiro, ele a insulta e algumas vezes a agride fisicamente. A intensidade das agressões vem crescendo e o ódio de Kelly acompanha como numa linha paralela. Sempre que isso acontece, ele fuma, bebe muito e ela se droga para ignorar as dores, físicas e psicológicas. Para piorar para Elias, Kelly começa a ser obrigada a levar clientes para sua própria casa. Eles alegavam que suas mulheres desconfiavam de tudo e poderiam haver testemunhas se fossem a algum lugar específico. Claro que gastos com motéis, que eles não tinham mais desde aquele dia não iam para Kelly, ela não era tão valorizada assim. A casa deles então começou a ser muito vigiada, e as agressões de Elias também. Ele já não podia agredi-la tanto, pois alguns clientes estavam de olho nisso e poderiam facilmente matá-lo. Elias decide dar uma volta pela cidade numa manhã. Conversa com alguns de seus colegas de gangue sobre o que planejam fazer para conseguir dinheiro. Todos estão perdidos. Não sabem o que fazer. Um deles, com o diferencial de ser esperto, chamado Enrique, conversa a sós com Elias e diz estar fazendo um plano para assaltar o banco central da cidade, apenas precisa juntar com mais bandidos de outras gangues. Não que Elias fosse a mais alta voz ali da gangue. Na verdade, não fez muita diferença sua decisão após três semanas. Enrique conversava a sós com todos sempre que podia. Elias passa toda aquela tarde com seus colegas discutindo muitas coisas, fumando e bebendo. Enquanto isso, Kelly se encontrava em sua casa com um de seus principais clientes chamado Gabriel. Elias deve muito dinheiro a ele. Sorte não estar nem por perto naquela hora. Os dois se divertem a tarde toda. Diferente de muitos clientes, Gabriel passa para Kelly muita segurança e cuidado. Não a maltrata nunca. Adora dar presentes pra ela. Talvez por ter dinheiro de sobra, graças ao tráfico de drogas e outros serviços oferecidos por ele como espionagem, assaltos, homicídios, liberação de prisioneiros e tantos outros mais. Gabriel se despede dela deixando o pagamento do dia e drogas. Ele faz uma ligação de seu celular enquanto dirige seu carro. Elias volta para sua casa. Ao abrir a porta, a primeira coisa que ele enxerga é a televisão no meio da sala, ligada e num canal fora do ar e mudo. Ao dar alguns passos a mais ele vê roupas da Kelly espalhadas pelo chão e logo se depara com ela ali estirada sem roupa, com seu corpo totalmente exposto. Elias não entende o que é aquilo e entra lentamente.
- É impossível, Enrique!
- Não é!
- Claro que é! Nossa gangue só tem diminuído! Você sabe disso!
- Eu sei, eu sei! Mas pense! Seria um motivo em comum! Para qualquer um interessa roubar aquela droga de banco! Por que você acha que nunca deu certo? Todos vão lá sedentos por dinheiro e em pouco número. Todos morreram ou foram presos!
- Mas é claro! A segurança ali é máxima!
- Sim, mas imagina todas as gangues juntas! Todas juntas!
- É muito arriscado. Na hora de repartir o dinheiro aconteceria uma guerra!
- Não. Não aconteceria! Poderíamos colocar o Gabriel e Igor nessa jogada.
- Está louco? Eu devo dinheiro para esse cara! Sem chance!
- Pois é, meu velho! Você, ali no meio, seria uma garantia e um motivo para ele participar! Pense bem!
- Não sei não... Vou pensar sobre isso e te falo depois.
- Igor? Tudo certo para você resolver aquilo?
- Claro! Não se preocupe. Está tudo no caminho.
- Que bom... Ligue-me assim que possível então.
- Sem problemas.
- Mas o que houve aqui? - Elias pergunta.
A Carta Perdida - Carta ao Leitor - Paulo Costa
O projeto "Contos de Sangue", surgiu a algum tempo atrás para ser escrito e lançado no formato de livro. Devido a alguns contra-tempos, as histórias não foram completamente desenvolvidas e guardamos o projeto na "gaveta". Muitas coisas mudaram desde então, inclusive a visão sobre os membros do estúdio sobre esses projetos "engavetados". Em um belo dia, retiramos o "Contos de Sangue" da gaveta e decidimos utilizar o argumento para a criação de um novo Blog! E foi exatamente isso que fizemos, desenvolvendo histórias sempre complementadas com ilustrações de cada conto em particular e mantendo o Blog sempre atualizado. Este conto recém terminado, "A Carta Perdida", foi desenvolvido especialmente para a abertura do Blog, colocando o leitor logo de cara em contato com o tipo de material que exibiremos. Decidimos pelo Blog como maneira de divulgação, para termos a liberdade de publicação e contato direto com os leitores, seja por meio de comentários, e-mail ou qualquer outro meio de comunicação. Eu como autor do conto, gostaria de pedir desculpas para caso haja algum erro gramatical ou de concordância no mesmo, porque apesar das inúmeras correções feitas por diversas pessoas, devido ao grande número de projetos que estamos desenvolvendo, alguns erros podem ter sido ignorados! Sintam-se à vontade para criticar ou elogiar. Muito obrigado queridos leitores e até o próximo Conto de Sangue!.jpg)
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos que aguardaram ansiosamente pelo final do primeiro conto do nosso no blog. Obrigado pessoal, esse apoio de vocês é o que mantem a nossa vontade de seguir em frente!
-- Paulo Costa
A Carta Perdida - Parte V - Paulo Costa
Estava sentado ao piano, praticando uma nova melodia. Não queria desapontar ao seu pai, que sempre o elogiava muito quando tocava uma canção completa, sem errar. Gostava muito de fazer com que o seu velho pai sentisse orgulho de seu único filho. A tarde estava quente, típica de verão. Todas as janelas estavam abertas, deixando entrar uma brisa suave que de vez em quando percorria a sala inteira. Ouviu a porta abrir e se fechar atrás de si e então passos. Passos estes que eram inconfundíveis. Eram os passos das luxuosas e lustrosas botas de seu pai. Continuou tocando, sem parar. Conseguiu distinguir, através das sombras que se formavam suavemente na parede à sua frente, que seu pai havia parado bem ali, atrás dele, sempre o observando de cima. Não podia parar, os seus dedos pareciam dançar sobre as teclas. Sentiu os dedos de seu pai entrelaçarem os seus cabelos úmidos, suavemente. Sentia-se um pouco desconfortável agora. Tais gestos não eram muito comuns, vindos de uma pessoa fria e seca como seu pai. Continuou tocando. Agora os dedos de seu pai não mais entrelaçavam os seus fios de cabelo, mas sim, uma das mãos massageava levemente o seu pescoço enquanto a outra descia, por dentro de sua camisa, em direção ao seu peito. A canção parecia ter tomado conta de seu corpo, quase como uma possessão e, ironicamente, possessão era uma palavra desconhecida para aquele pequeno garoto até o fim daquela tarde. O velho homem, imóvel, envolvido pelas sombras, sentado em sua enorme poltrona, parecia estar rindo, algo como um rosnado ou o último sopro de ar que os seus pulmões, que não pareciam nada bem, poderiam reproduzir. Aquelas simples palavras atingiram o seu peito como facas, perfurando e penetrando, cada vez mais fundo, como se sentissem prazer, centímetro por centímetro. Lembrou de todos os momentos que passara ao lado daquela pessoa deplorável. A dor era tanta que não podia suportar. Com a precisão que adquirira nos últimos nove anos, trabalhando como assassino profissional, desferiu um, dois, três tiros, exatamente no meio do peito do seu velho pai. A poltrona, que antes parecia uma barreira de sombras impenetráveis, tombara, fazendo com que a luz iluminasse muito bem o rosto daquela pessoa, que já não lhe trazia semelhança alguma com o que um dia fora o seu pai. Aproximou-se. Queria certificar-se de que havia feito o que pretendera corretamente. Podia sentir o cheiro de sangue, saindo pelo peito do velho homem deitado aos seus pés e inundando o chão imundo daquele apartamento. Virou e começou a andar em direção a porta que havia dado passagem a todo aquele inferno vivido nos últimos minutos. Guardou a arma em segurança novamente dentro de seu casaco, em um gesto automático. Somente ao guardar sua arma, reparou que, amassada em sua mão esquerda, estava a velha carta. Abriu a mão e notou que o lacre vermelho, de cera, havia sido rompido. Colocou sua mão direita, que ainda tremia devido aos tiros, dentro do envelope, e tirou o único pedaço de papel que havia ali. A letra era de sua falecida mãe. Começou a ler. Querido e amado filho. Dobrou a carta delicadamente, recolocando-a de volta no envelope, virou para trás e arremessou-a em direção ao peito ensangüentado do velho homem. Fechou os olhos e pôde sentir, pela primeira vez em muitos anos, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Lágrimas.
- Monstro! - gritou, chutando a pequena mesa de centro, fazendo voar cinzas e cartas para todos os cantos.
- Então, você finalmente lembrou... - disse o velho homem, sem poder continuar devido a uma crise de tosse repentina.
- Como pôde fazer aquilo? - disse, levando a sua mão direita para dentro de seu casaco e puxando a sua arma que continuava engatilhada desde o incidente mais cedo, com o garoto. - Seu velho nojento! - exclamou quase como um grito, apontando a sua arma diretamente para o que imaginava ser o peito do velho homem.
- Eu o amei... - disse o velho homem, tossindo mais uma vez.
Apontou sua arma com toda a segurança para a cabeça de seu pai. Não queria deixar dúvidas. Atirou.
Nunca tive a intenção de trazer tal assunto de volta para nossas vidas, mas acredito que como último desejo, possa perdoar o teu pai, que se encontra em situações piores que as da sua velha mãe.
Espero que o tempo tenha curado as feridas causadas pelos atos de um pai doentio.
Perdoe-o.
Com amor, sua mãe.
- Eu te perdôo... - disse virando-se novamente para a porta e agarrando fortemente a maçaneta. - ...papai.
FIM.
domingo, 27 de abril de 2008
A Carta Perdida - Parte IV - Paulo Costa
O apartamento era exatamente o que ele esperava que fosse, o reflexo da parte exterior, completamente sujo e antigo. Tudo o que conseguia ver era um corredor estreito e escuro, com uma única porta à sua direita que com certeza o levaria até a cozinha. Checou a porta da suposta cozinha, que por sua vez estava trancada. Sentia-se como se estivesse correndo atrás do queijo, dentro de uma ratoeira, mas o medo era um sentimento que há muito havia aprendido como lidar e transformá-lo em força. Continuou mais confiante do que nunca de que encontraria alguma resposta sobre aquela carta. Ao chegar à única sala, reparou rapidamente que não haviam muitos móveis. Apenas um sofá fedorento, uma pequena mesa de centro com algumas cartas de baralho amassadas, um cinzeiro que abrigava restos de cigarros de várias marcas, amassados, e uma espécie de poltrona giratória, enorme, virada em direção à enorme janela lateral, que não vira do lado de fora do prédio, sem cortinas, deixando entrar a pouca luz que vinha dos postes da rua. Parou por um momento perto da mesa de centro, tentando procurar alguma informação, mas não havia nenhuma informação útil naquele lugar. Não acreditava que tivera que passar por tudo o que passara por absolutamente nada. Deveria ele deixar a carta ali na mesa, e sair? Talvez, mas nunca saberia se o destinatário era realmente a pessoa que encontrou a carta. Não poderia fazer aquilo, estava envolvido com o sentimento de cumprir esta tarefa. Perdido em seus próprios pensamentos, não ouviu quando a velha e enorme poltrona, localizada perto da janela, começou a se mover, virando-se lentamente, até parar de frente para si. Lembranças vieram em sua mente novamente. Podia ver claramente este mesmo homem sentado com ele no seu velho piano, batendo-lhe nos dedos com um pedaço de madeira quando errava e em seguida, acariciando-os, pedindo desculpas. Podia ver o homem lhe ensinando a andar em sua bicicleta pela primeira vez sem as rodas de apoio em uma rua cheia de árvores em ambos os lados, cheirando a orvalho fresco da manhã. Podia ver o mesmo homem envelhecendo em sua memória, levando-o até o "Beco da Perdição" e dando-lhe quantias exorbitantes de dinheiro para que pagasse algumas prostitutas, para que afirmasse a sua masculinidade na frente de seus amigos. Tudo estava claro agora em sua mente. As peças começavam a se encaixar e com elas, a sua última lembrança daquela cidade pútrida. A única coisa que não conseguira lembrar, durante todos esses anos longe dali. A mais nojenta das lembranças que um ser humano poderia ter.
A Carta Perdida - Parte III - Paulo Costa
Após algumas quadras, a escuridão já tomava conta das ruas, iluminadas apenas por antigas lâmpadas que balançavam suavemente, produzindo em uníssono, uma orquestra regida pelo vento onde os instrumentistas nada mais eram do que correntes enferrujadas.
Estava perto, poderia afirmar, sentia uma estranha energia o puxando até ali, já que nunca estivera naquela parte da cidade antes e fora guiado por instinto, sem nem ao menos um mapa para consulta. Avistou um antigo prédio baixo, de quatro andares e janelas simetricamente quadradas. Aproximou-se de sua fachada em tons de marrom, corroídos pelo tempo e checou os números escritos no envelope com os que estavam cravados na escura placa de metal, logo acima da porta principal. Os números estavam corretos, a carta deveria ser entregue neste prédio. Subiu os únicos três degraus até a porta principal e a abriu, sem nenhuma resistência.
As divisões do prédio eram bem simples, uma escada estreita e escura, alinhada com a porta de entrada e quatro apartamentos por andar, numerados objetivamente. Estava à procura do numero nove, o que tudo indicava que precisaria subir até o terceiro andar. Seguiu rumo à escada. O lugar parecia estar prestes a cair, o papel de parede, ou pelo menos o que sobrara dele, não aparentava ter menos de quarenta anos. Em meio à escuridão das escadas, procurou tomar o máximo de cuidado para não fazer nenhum barulho, pois haviam garrafas vazias e vários objetos jogados nos degraus.
Finalmente chegara ao terceiro piso, em busca do número nove. As luzes deste andar pareciam não funcionar a muito tempo, apenas uma estava acessa corretamente e outras duas piscavam incessantemente, como se estivessem sido forçadas a trabalhar.
sábado, 26 de abril de 2008
A Carta Perdida - Parte II - Paulo Costa
Andando pelas ruas de sua velha cidade, sem saber muito bem aonde aquele endereço o levaria, começou a sentir-se fraco e cada vez mais atormentado por suas lembranças.
Ao fechar a porta de sua velha casa sem olhar para trás, apenas havia aberto muitas outras, não reais, mas sim dentro de sua própria mente, do seu próprio coração, aquelas lembranças e sentimentos que nunca se vão. Todas aquelas ruas pareciam ter sido esquecidas pelo tempo e pela evolução, suas calçadas ainda conservadas, as suas árvores intactas, as cores, os cheiros, tudo exatamente como se lembrava.
Não conseguia acreditar como uma simples visita e uma simples carta pudessem transtornar tanto uma pessoa extremamente calculista e decidida como ele.
Continuou sua jornada sem se preocupar por onde estava andando, dedicando toda sua atenção aos números escritos pela sua falecida mãe naquele envelope. Passou por vários moradores locais que o olhavam com curiosidade, mas nem mesmo reparara. Esbarrou em algumas latas de lixo enormes ao entrar em um beco escuro, antes conhecido como "Beco da Perdição", lar de prostitutas, vagabundos e usuários de drogas. Já havia estado ali, aos treze anos, conseguia se lembrar perfeitamente daquelas paredes de tijolos cheias de lodo, todo o lugar fedia. Estivera ali para se afirmar como homem e pagar com notas altas, quantas prostitutas quisera. Tudo veio à frente dos seus olhos, como um filme antigo sendo exibido bem ali, no meio daquele beco fétido. Levou uma das mãos ao rosto, na tentativa de tampar as narinas, enquanto a outra mão segurava firmemente a carta. Sentiu seus joelhos bambearem e sem ter onde se apoiar caiu, no chão negro e molhado, como uma pedra. Ouviu passos, barulhos frenéticos e incessantes. Colocou a mão dentro de seu casaco e segurou o seu revolver já engatilhado. Não poderia estar ali sem o seu melhor amigo por anos. Então, mais uma vez o silêncio fora quebrado por passos, curtos e rápidos, vindos de algum lugar por detrás de todo aquele lixo acumulado. O dia estava chegando ao fim, a luz do pôr do sol já estava se extinguindo, dificultando ainda mais a sua visão. Arrastou-se para um dos lados da enorme pilha e apontou o seu revólver, pronto para atirar sem nem ao menos hesitar. Seus olhos e reflexos eram bem treinados. Apesar de não estar nada bem em decorrência a suas lembranças, acabara de evitar a morte sem sentido de um garoto, que não aparentava ter mais de nove anos, faminto, procurando comida em uma das latas que fora colocada ali a pouco na porta dos fundos de um restaurante nojento. O garoto amedrontado, não teve outra reação senão sair correndo dali imediatamente antes que aquele revolver fosse realmente disparado. Guardou sua arma, sentindo-se aliviado por não ter atirado. Sentiu-se revigorado. Levantou-se, apoiando a palma de suas mãos nos próprios joelhos, tomou fôlego, sentindo o fedor invadir suas narinas mais uma vez e voltou a andar, seguindo até o final do beco, checando o endereço escrito no envelope, como se pudesse tê-lo esquecido.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
A Carta Perdida - Parte I - Paulo Costa
Uma carta. Nada mais do que uma simples carta, velha e amarelada. Não que esperasse algo de sua miserável mãe, mas se espantou ao receber uma carta, endereçada e selada, como herança. Não havia nem sequer o nome do destinatário, se era homem ou mulher e apesar do desgaste sofrido pela tinta azulada, dava-se para ler perfeitamente o endereço, conhecia aquela grafia floreada muito bem, recebera milhares de cartas da mãe desde que a deixara há alguns anos. Entretanto, nunca abrira alguma delas, preferira deixar para trás o seu passado e começar uma vida nova, da maneira como havia escolhido. Solitário.
Não sentia curiosidade alguma sobre o conteúdo da carta em si, mas sim, sobre o destinatário. Não conseguia entender, não ali naquele momento, porque sua mãe escreveria uma carta, a endereçaria e logo em seguida, a guardaria, para que fosse encontrada apenas algum tempo depois de sua morte. Talvez, como último desejo, quisera sua falecida mãe, que seu único filho, fizesse o favor de finalmente entregar esta carta para o não citado, destinatário.
Inconscientemente, ao pressionar o seu dedo indicador na tentativa de quebrar o lacre vermelho feito com cera, como nos velhos tempos, uma violenta dor de cabeça, súbita como chuvas de verão, fez com que deixasse a carta cair, para que tentasse se apoiar em algum dos poucos móveis que restaram na velha casa de sua mãe. Levantou a cabeça, tentando entender o que havia acontecido, sem perceber que o móvel onde estava apoiado, antes coberto por um pano empoeirado, estava agora à mostra, um velho piano, já não tão charmoso como nos velhos tempos, mas ainda elegante. Sentiu seu estômago revirar ao se lembrar das tardes em que passara naquele velho piano. Ofegante, afastou-se e procurou apoio em uma das paredes laterais de um longo corredor. Lembranças de sua infância há muito esquecidas, voltaram como um choque, aterrorizante e impiedoso. Sentia que precisava sair daquela casa imediatamente. Sabia que retornar àquele lugar só lhe traria mais dor e sofrimento, e isso, já não fazia mais parte dos sentimentos que estava acostumado a sentir vivendo longe dali. Seguiu em direção à porta, mas não antes de pegar a velha carta e guardá-la com segurança em um dos bolsos do seu casaco. Iria até aquele endereço, estava mais decidido do que jamais estivera. Encontraria o destinatário a todo custo e se livraria de uma vez deste doloroso encargo. Não poderia simplesmente deixar a carta ali, no chão. Algo estava fazendo com que ele se sentisse obrigado a cumprir tal tarefa. Deu seus últimos passos no estreito corredor, sem olhar para trás, abriu a porta e saiu, deixando para trás somente a poeira do que um dia fora o seu lar.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
O Início!

Sejam bem-vindos ao blog do Contos de Sangue, mais um projeto do Estúdio Tela Branca.
A idéia dos Contos de Sangue nasceu da iniciativa de criação de contos, onde a violência, os limites humanos e sobre-humanos são testados e desafiados.
Os contos buscam levar os leitores além das palavras, transportando-os para os mais sombrios becos e situações onde o perdão e a misericórdia são meras lendas.
Esperamos fazer com que vocês, leitores, sintam-se cada vez mais instigados a retornar ao nosso blog para o próximo capítulo, para o próximo conto e compartilhar suas opiniões, dicas e sugestões.
E você pensa que acabou? Se enganou!
Além dos contos, o blog contará sempre com ilustrações exclusivas relacionadas aos contos, fazendo com que as palavras sejam traduzidas para arte visual.
Agradecemos o apoio de todas as pessoas envolvidas no projeto e desde já, muito obrigado, caros leitores.
-- Equipe do Estúdio Tela Branca
